quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Frutos

Tinha raízes.
Não morreu. Apenas, aprofundou-se.

Voo livre

Pegou o moço pelas mãos. Soprou seu rosto.
Encostou em seus ombros, e se fez chorar.
Pegou o voo pelo osso. Saltou livre do penhasco.
Encostou a face nos escombros, e se fez lidar.
Pegou o tronco mal cortado. Cortou os dedos no machado.
Encostou o lábio na mão suja, e se fez calejar.

Para cada soco, um louco.
Para cada lírio, um morto.
Para cada escândalo, um grito.
Para cada amor, um lampejo.

Pegou o moço pelas mãos. Soprou seu rosto.
Ensinou a força brutal que nasce nos enclausurados.
Disse: Vai.
Moço foi.
Disse: Fui.
Moço entendeu.

Para cada professor, um aluno.
Para cada absurdo, um cuidado.
Para cada corte, um curativo.
Para moço, visionário.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Plástica.

Acordou bem cedo, e olhou-se no espelho.
Viu na imagem, seus 59 anos. 
Pensou: Assim que terminar de preencher a alma, preencho o rosto!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Casa cheia

Numa casa moravam cinco moças.
Cada uma tinha um dom.
Numa casa moravam cinco moças.
Cada uma tinha um som.
Numa casa moravam cinco moças.
Cada uma tinha um cheiro.
Numa casa moravam cinco moças.
Cada uma tinha um beiço.
Na mesma casa morava um velho cego.
Conhecia cada uma como a palma da mão.
Amava cada uma de um jeito.
Ficou cego de tanto olhar aquelas belezas.
Uma noite, morreu o velho.
A moça Joaquina limpou o velho.
A moça Mariquinha vestiu o velho.
A moça Tamires avisou os vizinhos.
A moça Joana ligou para o cemitério.
A moça Francine só chorou, porque o o dom dela era Amor.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Mulher obediente!

Era casado com uma mulher de nome Santinha.
Todo dia, quando saia para trabalhar, dizia:

Santinha, minha filha, seja você mesma!

Mal passava pela porta, a mulher recebia o amante. Só para seguir as ordens do marido.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Fofoca Literária (Ou: Os fingidores) (Ou:Cada macaco no seu galho)


Ele começou falando uma coisa no ouvido de alguém. O círculo foi fechando.
As palavras foram sendo levadas, porque palavras voam. 
Leu Dostoiévski e disse: Vocês viram que esse autor matou o próprio pai? Ele matou uma velha também. Ele roubou.
Leu Kafka e disse: Pessoal, esse escritor virou uma barata. Juro. Ele escreveu. 
Leu Gabriel Garcia Marques e sentenciou: Que nojo, esse escritor tem tara por menininha. Está lá escrito no livro das putas tristes.
Leu Borges e concluiu: Deus me livre, ler um livro de areia. Demoníaco.
Leu Llosa e pensou: Coitado. Amar assim uma menina má.

Quando voltou para casa, olhou-se no espelho, e estava sujo.
Não entendeu. Lavou-se. 
Decidiu parar de ler aqueles escritores escrotos que tem que viver tantas coisas podres para escrever.
Nunca mais leu. Mas toda vez que se olhava no espelho, via sua pele suja.

Dostoiévski olhou para os outros e disse: A ignorância mancha a vida, meus amigos. A literatura é Alvejante.
E foram todos eles dormir tranquilos porque estavam limpos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A cura (Ou: O Guru)

Estava ali, como guru. O Guru do Sono, como era chamado.
Auditório cheio de insones, a procura de ajuda.

Abriu o discurso, pigarreando.
Segurou as duas mãos juntas, dedos enroscados, como se fosse fazer uma oração:

Senhores, agradeço a presença de todos. Depois de muitos anos fora do país, descobri a cura para a insônia. Sei que esperam respostas. Antes, farei um breve discurso.



Duas horas depois, ao finalizar sua longa, longa explicação, olhou para a platéia que cochilava nas poltronas fofas.
Encheu o peito de orgulho e pensou com ele mesmo: Sucesso. 
Saiu da sala, apagou a luz, e deixou atrás dele os roncos que soavam em seus ouvidos como aplausos.