terça-feira, 12 de agosto de 2014

Estação

Decidiu-se pelo desapego.
Tal decisão exige, no fundo, dedicação.
Pensou consigo: é preciso consciência.
E conscientizou-se.

Partiu para o desapego.
Tal decisão exige, no fundo, coragem.
Pensou consigo: é preciso utopia.
E sonhou em larga escala.

Chegou ao desapego.
Tal decisão exige, no fundo, frieza.
Pensou consigo: é preciso liberdade.
E percebeu-se escravo.

Não poderia ir a lugar algum sem toda a bagagem.
Por isso, pegou todas as malas, colocou-as em um vagão e disse: vão.
O desapego que podia exercer não era sobre si e sim sobre o outro.
Mas não ficou na estação. Voltou para casa. A pé.

Tinha feito o que podia. Libertou seus pertences por crer que não eram dele.
Disse aos seus: vão embora. Não precisam mais de minha rota. Me custa muito dizer que preciso.
E os seus partiram, também.
Olhou-se no espelho e viu-se só.
Mas a solidão poética dos que devem viver só.
E escreveu. Escreveu um texto velho, bem velho.
Leu e disse: Era a razão um algoz muito severo. Viva eu, agora, a fluidez.



domingo, 10 de agosto de 2014

Riscos



Dizer não, e colocar-se.
Abrigar-se em abraços firmes e verdadeiros. 
Calar-se em solidão produtiva.
Querer ou não querer e fazer valer até o calor de suas angústias. 
De tal modo, e tanto, que ao viver o amor ou desencanto,
Tenha para si a culpa ou a certeza de que responde por suas escolhas ou renúncias. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sozinho

Sentou-se em frente dele mesmo.
Percebeu-se faltoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se em blocos.

Sentou-se em frente ao espelho d´água.
Percebeu-se aquoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, fluido.

Sentou-se em frente ao breu.
Percebeu-se poço sem fundo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, infinito.

E para cada canto tinha um álibi.
E para cada álibi, um juízo.
E para cada juízo, um chamado.
E para cada chamado, um zumbido.

Sentou-se em frente a vida.
Percebeu-se só desde o inicio.
Naquela longa, longa noite...
percebeu-se, perdido.

domingo, 11 de agosto de 2013

Ida e volta

Viajou para longe para voltar inteiro.
Quando chegou, encontrou seu lugar ocupado.
Chorou três dias e mais um copo de vodca
Perdeu viagem ao se procurar onde não estava.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Os outros

Era tudo e tanto em tão pouco tempo
que desgastou a aurora e a cor,
desmascarou a ruidosa harmonia
e foi, então, o que restou: o vento

E sabe-se lá por onde andam
não comunicam nem encantam
só ignoram a razão dos loucos
 e se fazem de tontos
 como se nunca tivessem se amado



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Pardal

Chamava-se Pedro. Tinha oito anos.
Decidiu que a vida dentro de casa era muito chata.
Combinou com os amigos.
Mamãe não me deixa sair. Vou mandar meu coração preso em um balão. Recebam minha encomenda.
Pegou seu coraçãozinho, amarrou num balão de gás vermelho, foi até o quintal e soltou.
Viu, feliz, seu tesouro voando pelos céus e indo para quem ele tinha mandado.
Estava livre. Livre para ir por todos os caminhos que ele queria ir. Estava solto num espaço tão quente e acolhedor que seus sonhos pareciam pequenos.
Ao perder o pontinho vermelho de vista, voltou correndo para dentro de casa. E não sentia mais nada.
A mãe tinha feito bolo e ele nem sentiu vontade de passar os dedinhos na cobertura como sempre fazia.
O irmão chamou: Vamos brincar na casa do vizinho. E ele não sentiu seu coração bater forte em busca de traquinagem.
Perdeu-se. Voou, realmente, para tão longe que não tinha mais como voltar.
Os dias eram longos e sozinhos.
Quebrou uma coisinha dentro dele. Quebrou em volta dele.
Mandou um bilhete no bico de um pardal:
Amigos, preciso urgente do meu coração. Mandem de volta.
Recebeu a encomenda três dias depois.
Estava um pouco sujo e amassado.
E talvez por isso, ou talvez só por conta do tempo que se passou, a vida nunca mais foi a mesma.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Noticiário

E era a vida frágil. E era o ar árido. E era o despeito em forma de tédio.
E era a angústia salafrária. E era a tristeza disfarçada. E era a tormenta suja.

E já não é mais. Já não cobre mais de pólvora a mão dura.
E já não empunha mais a arma fria.
Era bandido. Agora, morto. Semi morto. Agonizante.

Um celular, uma vida.
Uma mochila, um destempero, uma sacada para jogar filhos.
Bandidos. Todos nascidos de ventre. Todos.
Cada qual parido. Desejado? Odiado? Deixado? Amado?
Bandido. Que mata filho dos outros, que mata seus próprios filhos.
Bandido.
Que rouba dinheiro vestindo bermuda, vestindo terno e gravata. Atrás das mesas.
Dentro de igrejas. Em buracos de fumo. Que mata freiras, ativistas, putas, mães.
Que explode pessoas, que mutila.
Bandido. Mesmo tipo. Mesma culpa.
Todos da mesma raça. A raça humana. Essa raça que se define em categorias.
Em clãs. Em divisões de status. Que julga o credo, o sexo, a dor, a cara.
Raça. Raça. Humana. Desumana.
Como criaremos novas crianças? Como educaremos quem mora dentro de casa?
Talvez, matando o bandido que existe dentro de cada um?
Aquele que, vez ou outra, sussurra barbaridades em nossos ouvidos.
Aquele que diz que somos melhores. Que somos mais puros.
Talvez, só talvez, o mundo que vive fora de nós seja mais suportável,
quando o mundo que vive em nossas tripas, for mais doce.

E vamos viver.
Até porque,  a vida exige coragem.