segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Teresa cansada (Ou Teresa de saco cheio) (Ou Teresa vai a luta) (Ou só Teresa, mesmo)

Teresa cansou-se de tal modo de não saber de nada que decidiu-se pela total lucidez.
Tomou nas mãos seu casaco e suas galochas, e foi dar uma volta por entre seus rins.
Achou ali uns restos dela mesma: coisas de quatro ou cinco anos atrás.
Viu memórias líquidas e infantis. Ao perceber seu fígado intacto, tomou novo rumo na vida.
Resolveu o resto com dois goles de vodca.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Líquido

Tomou um gole de veneno bem doce
desses que descem quentes na garganta.
Arrotou uma bossa quase morna
um descaroço, um desconforto

quase teve um calafrio doído
um calabouço no pescoço
teve pudor de ser ele
teve ardor de ser menos

Decidiu-se por si mesmo.
Decidiu-se por ser um poeta escroto
escreveu uma linha bem sangue
e percebeu que o veneno fazia efeito

Tomou um gole de veneno bem doce
desses que descem sexo na garganta.
Arrotou uma bossa quase prenha
um desalento, um desperdício.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Estação

Decidiu-se pelo desapego.
Tal decisão exige, no fundo, dedicação.
Pensou consigo: é preciso consciência.
E conscientizou-se.

Partiu para o desapego.
Tal decisão exige, no fundo, coragem.
Pensou consigo: é preciso utopia.
E sonhou em larga escala.

Chegou ao desapego.
Tal decisão exige, no fundo, frieza.
Pensou consigo: é preciso liberdade.
E percebeu-se escravo.

Não poderia ir a lugar algum sem toda a bagagem.
Por isso, pegou todas as malas, colocou-as em um vagão e disse: vão.
O desapego que podia exercer não era sobre si e sim sobre o outro.
Mas não ficou na estação. Voltou para casa. A pé.

Tinha feito o que podia. Libertou seus pertences por crer que não eram dele.
Disse aos seus: vão embora. Não precisam mais de minha rota. Me custa muito dizer que preciso.
E os seus partiram, também.
Olhou-se no espelho e viu-se só.
Mas a solidão poética dos que devem viver só.
E escreveu. Escreveu um texto velho, bem velho.
Leu e disse: Era a razão um algoz muito severo. Viva eu, agora, a fluidez.



domingo, 10 de agosto de 2014

Riscos



Dizer não, e colocar-se.
Abrigar-se em abraços firmes e verdadeiros. 
Calar-se em solidão produtiva.
Querer ou não querer e fazer valer até o calor de suas angústias. 
De tal modo, e tanto, que ao viver o amor ou desencanto,
Tenha para si a culpa ou a certeza de que responde por suas escolhas ou renúncias. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sozinho

Sentou-se em frente dele mesmo.
Percebeu-se faltoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se em blocos.

Sentou-se em frente ao espelho d´água.
Percebeu-se aquoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, fluido.

Sentou-se em frente ao breu.
Percebeu-se poço sem fundo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, infinito.

E para cada canto tinha um álibi.
E para cada álibi, um juízo.
E para cada juízo, um chamado.
E para cada chamado, um zumbido.

Sentou-se em frente a vida.
Percebeu-se só desde o inicio.
Naquela longa, longa noite...
percebeu-se, perdido.

domingo, 11 de agosto de 2013

Ida e volta

Viajou para longe para voltar inteiro.
Quando chegou, encontrou seu lugar ocupado.
Chorou três dias e mais um copo de vodca
Perdeu viagem ao se procurar onde não estava.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Os outros

Era tudo e tanto em tão pouco tempo
que desgastou a aurora e a cor,
desmascarou a ruidosa harmonia
e foi, então, o que restou: o vento

E sabe-se lá por onde andam
não comunicam nem encantam
só ignoram a razão dos loucos
 e se fazem de tontos
 como se nunca tivessem se amado