Eram dois reizinhos gêmeos que, de mãos dadas, ficavam a julgar o povo que por eles passava.
Credo, credo, diziam eles. Nem por mil moedas queria este ninguém a morar em nosso reino.
Credo, credo, diziam eles. Nem por mil cavalos queria este alguém, que de nada serve, a nos servir em nosso reino.
Credo, credo, diziam eles. Credo, credo.
Os reizinhos gêmeos ficavam a torcer a cara. Desviavam o olhar com desdém e nojo.
Vez ou outra, vinha um desavisado e lhes estendia a mão.
Viravam as faces, os pobres monarcas, e , torcendo ainda mais o próprio bico, deixavam a mão mal estendida para que o outro se curvasse.
Mal sabiam eles, os pobres monarcas de capas rubras, que o reino que julgavam ter, não existia. Que talvez não todos os passantes, mas, os melhores sabiam que estavam nus em seus tronos de mentirinha.
Mal sabidos reis gêmeos. De mãos dadas iam tomando um rumo feio na vida. Onde a solidão habita o íntimo e a amargura domina o coração. E, ao viverem na escassez da razão, na doutrina do mal amor, deixavam passar por eles gente de verdade, almas de verdade, reis de verdade.
Dois reizinhos bobos, da cara retorcida, enxergavam tão somente o ego que dormiam em ruínas.
Dois reizinhos tolos, da capa rubra e rota, mal sabiam eles que sua nudez já estava descoberta.
sábado, 21 de março de 2015
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Bloquinho (Ou: Para não mentir para você)
Queria ser três para dar conta de si,
para ser poli, muitas, várias ações, canções e preenchimentos.
Queria ser, além de ela mesma, algumas. E, assim, sentir menos culpa.
Menos culpa por ser feliz, menos culpa por ser infeliz,
menos culpa por ser pouco, por ser bipolar e não contar.
Menos culpa por não dizer abertamente que assim é.
Menos culpa por não cuidar,
por sentir inveja
por sentir capricho
por sentir tudo isso, agora, e daqui a pouco não sentir.
Deveria contar logo e acabar com isso.
Deveria, mas é carnaval e o bloco está na rua
e as caras estão pintadas e ela tem medo
Queria ser três para deixar de ser bi(polar)
tri.
Queria ser tri.
Tripudiar da vida.
Triplicar sua coragem.
Tri exemplificar suas noções.
Queria sentir menos culpa. Seria um avanço,
uma corrente a soltar-se do pescoço.
Queria dizer: não me sinto a vontade com você. Para,então, dizer: não me sinto a vontade de viver
para ser poli, muitas, várias ações, canções e preenchimentos.
Queria ser, além de ela mesma, algumas. E, assim, sentir menos culpa.
Menos culpa por ser feliz, menos culpa por ser infeliz,
menos culpa por ser pouco, por ser bipolar e não contar.
Menos culpa por não dizer abertamente que assim é.
Menos culpa por não cuidar,
por sentir inveja
por sentir capricho
por sentir tudo isso, agora, e daqui a pouco não sentir.
Deveria contar logo e acabar com isso.
Deveria, mas é carnaval e o bloco está na rua
e as caras estão pintadas e ela tem medo
Queria ser três para deixar de ser bi(polar)
tri.
Queria ser tri.
Tripudiar da vida.
Triplicar sua coragem.
Tri exemplificar suas noções.
Queria sentir menos culpa. Seria um avanço,
uma corrente a soltar-se do pescoço.
Queria dizer: não me sinto a vontade com você. Para,então, dizer: não me sinto a vontade de viver
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Desordem (Ou:Nudez)
Que calada, morra sua angústia
E sendo você, tão franca e burra
que nada mais execute além da própria morte.
Que sentada diante de seu medo
tome, em cálice negro, seu pânico,
(suas ânsias e suas loucuras)
e que nada mais encante a não ser sua própria sorte.
E vai então pelas beiradas
em caminho tortuoso
ser o que sempre foi:
fracasso, nudez e desordem.
E sendo você, tão franca e burra
que nada mais execute além da própria morte.
Que sentada diante de seu medo
tome, em cálice negro, seu pânico,
(suas ânsias e suas loucuras)
e que nada mais encante a não ser sua própria sorte.
E vai então pelas beiradas
em caminho tortuoso
ser o que sempre foi:
fracasso, nudez e desordem.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Acorrentada (Ou: Cinema) (Ou:A história de Mariana)
Mariana,
Que fique eu, de tal mal modo (e tão somente), a rondar teu pensamento
que, ao lembrar-se de mim e de meus segredos, fiquem cheios, teus olhos fundos.
E, ao acordar, a cada manhã, reviva eu em tuas palavras e desejos
a ponto de acordar teus vizinhos com tua música
e desenhar, com recortes, em tuas partituras.
Que tua angústia cesse, no entanto
e tanto e tantas vezes
que tua liberdade seja a de outrora
e teus passos bem largos por horizontes sem fim.
Que teu caixote se abra
a ponto de sair como bala,
de caminhar para frente,
de ser você, quem sempre foi
e fique eu em teu coração e tua mente.
Beijo-te mil vezes
como em partida
mas fico, fico, fico
e te liberto, enfim...
Com forte abraço,
Jairo (Teu irmão)
Que fique eu, de tal mal modo (e tão somente), a rondar teu pensamento
que, ao lembrar-se de mim e de meus segredos, fiquem cheios, teus olhos fundos.
E, ao acordar, a cada manhã, reviva eu em tuas palavras e desejos
a ponto de acordar teus vizinhos com tua música
e desenhar, com recortes, em tuas partituras.
Que tua angústia cesse, no entanto
e tanto e tantas vezes
que tua liberdade seja a de outrora
e teus passos bem largos por horizontes sem fim.
Que teu caixote se abra
a ponto de sair como bala,
de caminhar para frente,
de ser você, quem sempre foi
e fique eu em teu coração e tua mente.
Beijo-te mil vezes
como em partida
mas fico, fico, fico
e te liberto, enfim...
Com forte abraço,
Jairo (Teu irmão)
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Teresa cansada (Ou Teresa de saco cheio) (Ou Teresa vai a luta) (Ou só Teresa, mesmo)
Teresa cansou-se de tal modo de não saber de nada que decidiu-se pela total lucidez.
Tomou nas mãos seu casaco e suas galochas, e foi dar uma volta por entre seus rins.
Achou ali uns restos dela mesma: coisas de quatro ou cinco anos atrás.
Viu memórias líquidas e infantis. Ao perceber seu fígado intacto, tomou novo rumo na vida.
Resolveu o resto com dois goles de vodca.
Tomou nas mãos seu casaco e suas galochas, e foi dar uma volta por entre seus rins.
Achou ali uns restos dela mesma: coisas de quatro ou cinco anos atrás.
Viu memórias líquidas e infantis. Ao perceber seu fígado intacto, tomou novo rumo na vida.
Resolveu o resto com dois goles de vodca.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Líquido
Tomou um gole de veneno bem doce
desses que descem quentes na garganta.
Arrotou uma bossa quase morna
um descaroço, um desconforto
quase teve um calafrio doído
um calabouço no pescoço
teve pudor de ser ele
teve ardor de ser menos
Decidiu-se por si mesmo.
Decidiu-se por ser um poeta escroto
escreveu uma linha bem sangue
e percebeu que o veneno fazia efeito
Tomou um gole de veneno bem doce
desses que descem sexo na garganta.
Arrotou uma bossa quase prenha
um desalento, um desperdício.
desses que descem quentes na garganta.
Arrotou uma bossa quase morna
um descaroço, um desconforto
quase teve um calafrio doído
um calabouço no pescoço
teve pudor de ser ele
teve ardor de ser menos
Decidiu-se por si mesmo.
Decidiu-se por ser um poeta escroto
escreveu uma linha bem sangue
e percebeu que o veneno fazia efeito
Tomou um gole de veneno bem doce
desses que descem sexo na garganta.
Arrotou uma bossa quase prenha
um desalento, um desperdício.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Estação
Decidiu-se pelo desapego.
Tal decisão exige, no fundo, dedicação.
Pensou consigo: é preciso consciência.
E conscientizou-se.
Partiu para o desapego.
Tal decisão exige, no fundo, coragem.
Pensou consigo: é preciso utopia.
E sonhou em larga escala.
Chegou ao desapego.
Tal decisão exige, no fundo, frieza.
Pensou consigo: é preciso liberdade.
E percebeu-se escravo.
Não poderia ir a lugar algum sem toda a bagagem.
Por isso, pegou todas as malas, colocou-as em um vagão e disse: vão.
O desapego que podia exercer não era sobre si e sim sobre o outro.
Mas não ficou na estação. Voltou para casa. A pé.
Tinha feito o que podia. Libertou seus pertences por crer que não eram dele.
Disse aos seus: vão embora. Não precisam mais de minha rota. Me custa muito dizer que preciso.
E os seus partiram, também.
Olhou-se no espelho e viu-se só.
Mas a solidão poética dos que devem viver só.
E escreveu. Escreveu um texto velho, bem velho.
Leu e disse: Era a razão um algoz muito severo. Viva eu, agora, a fluidez.
Tal decisão exige, no fundo, dedicação.
Pensou consigo: é preciso consciência.
E conscientizou-se.
Partiu para o desapego.
Tal decisão exige, no fundo, coragem.
Pensou consigo: é preciso utopia.
E sonhou em larga escala.
Chegou ao desapego.
Tal decisão exige, no fundo, frieza.
Pensou consigo: é preciso liberdade.
E percebeu-se escravo.
Não poderia ir a lugar algum sem toda a bagagem.
Por isso, pegou todas as malas, colocou-as em um vagão e disse: vão.
O desapego que podia exercer não era sobre si e sim sobre o outro.
Mas não ficou na estação. Voltou para casa. A pé.
Tinha feito o que podia. Libertou seus pertences por crer que não eram dele.
Disse aos seus: vão embora. Não precisam mais de minha rota. Me custa muito dizer que preciso.
E os seus partiram, também.
Olhou-se no espelho e viu-se só.
Mas a solidão poética dos que devem viver só.
E escreveu. Escreveu um texto velho, bem velho.
Leu e disse: Era a razão um algoz muito severo. Viva eu, agora, a fluidez.
domingo, 10 de agosto de 2014
Riscos
Dizer não, e colocar-se.
Abrigar-se em abraços firmes e verdadeiros.
Calar-se em solidão produtiva.
Querer ou não querer e fazer valer até o calor de suas angústias.
De tal modo, e tanto, que ao viver o amor ou desencanto,
Tenha para si a culpa ou a certeza de que responde por suas escolhas ou renúncias.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Sozinho
Sentou-se em frente dele mesmo.
Percebeu-se faltoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se em blocos.
Sentou-se em frente ao espelho d´água.
Percebeu-se aquoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, fluido.
Sentou-se em frente ao breu.
Percebeu-se poço sem fundo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, infinito.
E para cada canto tinha um álibi.
E para cada álibi, um juízo.
E para cada juízo, um chamado.
E para cada chamado, um zumbido.
Sentou-se em frente a vida.
Percebeu-se só desde o inicio.
Naquela longa, longa noite...
percebeu-se, perdido.
Percebeu-se faltoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se em blocos.
Sentou-se em frente ao espelho d´água.
Percebeu-se aquoso consigo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, fluido.
Sentou-se em frente ao breu.
Percebeu-se poço sem fundo.
Naquela longa, longa noite,
perdeu-se, infinito.
E para cada canto tinha um álibi.
E para cada álibi, um juízo.
E para cada juízo, um chamado.
E para cada chamado, um zumbido.
Sentou-se em frente a vida.
Percebeu-se só desde o inicio.
Naquela longa, longa noite...
percebeu-se, perdido.
domingo, 11 de agosto de 2013
Ida e volta
Viajou para longe para voltar inteiro.
Quando chegou, encontrou seu lugar ocupado.
Chorou três dias e mais um copo de vodca
Perdeu viagem ao se procurar onde não estava.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Os outros
Era tudo e tanto em tão pouco tempo
que desgastou a aurora e a cor,
desmascarou a ruidosa harmonia
e foi, então, o que restou: o vento
E sabe-se lá por onde andam
não comunicam nem encantam
só ignoram a razão dos loucos
e se fazem de tontos
como se nunca tivessem se amado
que desgastou a aurora e a cor,
desmascarou a ruidosa harmonia
e foi, então, o que restou: o vento
E sabe-se lá por onde andam
não comunicam nem encantam
só ignoram a razão dos loucos
e se fazem de tontos
como se nunca tivessem se amado
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Pardal
Chamava-se Pedro. Tinha oito anos.
Decidiu que a vida dentro de casa era muito chata.
Combinou com os amigos.
Mamãe não me deixa sair. Vou mandar meu coração preso em um balão. Recebam minha encomenda.
Pegou seu coraçãozinho, amarrou num balão de gás vermelho, foi até o quintal e soltou.
Viu, feliz, seu tesouro voando pelos céus e indo para quem ele tinha mandado.
Estava livre. Livre para ir por todos os caminhos que ele queria ir. Estava solto num espaço tão quente e acolhedor que seus sonhos pareciam pequenos.
Ao perder o pontinho vermelho de vista, voltou correndo para dentro de casa. E não sentia mais nada.
A mãe tinha feito bolo e ele nem sentiu vontade de passar os dedinhos na cobertura como sempre fazia.
O irmão chamou: Vamos brincar na casa do vizinho. E ele não sentiu seu coração bater forte em busca de traquinagem.
Perdeu-se. Voou, realmente, para tão longe que não tinha mais como voltar.
Os dias eram longos e sozinhos.
Quebrou uma coisinha dentro dele. Quebrou em volta dele.
Mandou um bilhete no bico de um pardal:
Amigos, preciso urgente do meu coração. Mandem de volta.
Recebeu a encomenda três dias depois.
Estava um pouco sujo e amassado.
E talvez por isso, ou talvez só por conta do tempo que se passou, a vida nunca mais foi a mesma.
Decidiu que a vida dentro de casa era muito chata.
Combinou com os amigos.
Mamãe não me deixa sair. Vou mandar meu coração preso em um balão. Recebam minha encomenda.
Pegou seu coraçãozinho, amarrou num balão de gás vermelho, foi até o quintal e soltou.
Viu, feliz, seu tesouro voando pelos céus e indo para quem ele tinha mandado.
Estava livre. Livre para ir por todos os caminhos que ele queria ir. Estava solto num espaço tão quente e acolhedor que seus sonhos pareciam pequenos.
Ao perder o pontinho vermelho de vista, voltou correndo para dentro de casa. E não sentia mais nada.
A mãe tinha feito bolo e ele nem sentiu vontade de passar os dedinhos na cobertura como sempre fazia.
O irmão chamou: Vamos brincar na casa do vizinho. E ele não sentiu seu coração bater forte em busca de traquinagem.
Perdeu-se. Voou, realmente, para tão longe que não tinha mais como voltar.
Os dias eram longos e sozinhos.
Quebrou uma coisinha dentro dele. Quebrou em volta dele.
Mandou um bilhete no bico de um pardal:
Amigos, preciso urgente do meu coração. Mandem de volta.
Recebeu a encomenda três dias depois.
Estava um pouco sujo e amassado.
E talvez por isso, ou talvez só por conta do tempo que se passou, a vida nunca mais foi a mesma.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Noticiário
E era a vida frágil. E era o ar árido. E era o despeito em forma de tédio.
E era a angústia salafrária. E era a tristeza disfarçada. E era a tormenta suja.
E já não é mais. Já não cobre mais de pólvora a mão dura.
E já não empunha mais a arma fria.
Era bandido. Agora, morto. Semi morto. Agonizante.
Um celular, uma vida.
Uma mochila, um destempero, uma sacada para jogar filhos.
Bandidos. Todos nascidos de ventre. Todos.
Cada qual parido. Desejado? Odiado? Deixado? Amado?
Bandido. Que mata filho dos outros, que mata seus próprios filhos.
Bandido.
Que rouba dinheiro vestindo bermuda, vestindo terno e gravata. Atrás das mesas.
Dentro de igrejas. Em buracos de fumo. Que mata freiras, ativistas, putas, mães.
Que explode pessoas, que mutila.
Bandido. Mesmo tipo. Mesma culpa.
Todos da mesma raça. A raça humana. Essa raça que se define em categorias.
Em clãs. Em divisões de status. Que julga o credo, o sexo, a dor, a cara.
Raça. Raça. Humana. Desumana.
Como criaremos novas crianças? Como educaremos quem mora dentro de casa?
Talvez, matando o bandido que existe dentro de cada um?
Aquele que, vez ou outra, sussurra barbaridades em nossos ouvidos.
Aquele que diz que somos melhores. Que somos mais puros.
Talvez, só talvez, o mundo que vive fora de nós seja mais suportável,
quando o mundo que vive em nossas tripas, for mais doce.
E vamos viver.
Até porque, a vida exige coragem.
E era a angústia salafrária. E era a tristeza disfarçada. E era a tormenta suja.
E já não é mais. Já não cobre mais de pólvora a mão dura.
E já não empunha mais a arma fria.
Era bandido. Agora, morto. Semi morto. Agonizante.
Um celular, uma vida.
Uma mochila, um destempero, uma sacada para jogar filhos.
Bandidos. Todos nascidos de ventre. Todos.
Cada qual parido. Desejado? Odiado? Deixado? Amado?
Bandido. Que mata filho dos outros, que mata seus próprios filhos.
Bandido.
Que rouba dinheiro vestindo bermuda, vestindo terno e gravata. Atrás das mesas.
Dentro de igrejas. Em buracos de fumo. Que mata freiras, ativistas, putas, mães.
Que explode pessoas, que mutila.
Bandido. Mesmo tipo. Mesma culpa.
Todos da mesma raça. A raça humana. Essa raça que se define em categorias.
Em clãs. Em divisões de status. Que julga o credo, o sexo, a dor, a cara.
Raça. Raça. Humana. Desumana.
Como criaremos novas crianças? Como educaremos quem mora dentro de casa?
Talvez, matando o bandido que existe dentro de cada um?
Aquele que, vez ou outra, sussurra barbaridades em nossos ouvidos.
Aquele que diz que somos melhores. Que somos mais puros.
Talvez, só talvez, o mundo que vive fora de nós seja mais suportável,
quando o mundo que vive em nossas tripas, for mais doce.
E vamos viver.
Até porque, a vida exige coragem.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Competência (Ou: A culpa é de quem?)
Atendia pelo apelido de Neco. O nome era Manoel. Virou Maneco. Aos 20, era Neco.
Tinha pouca coisa na vida porque acostumara-se a essa diminuição.
Culpa da mãe. Era ela a causadora de tudo, visto que ia chamando o filho por nomes cada vez menores.
Se, ao contrário, aumentasse seus apelidos, gritasse por ele usando superlativos, colocasse seu nome em frases bem longas, usando proparoxítonas, acentuando tudo com empenho e consideração...
Mas, os acentos também quase estão em desuso. Fora de moda. Ideia, que era uma palavra tão certa para se botar um acento, já nem se acentua mais. Se ideia caiu, que dirá as outras tantas palavras que nem tanta importância tem?
Caiu Maneco, também. Caiu Manoel, Manoelzinho, Manequinho. Ficou Neco. E, para desespero do moço, ouvira, outro dia, a mãe, bem baixinho, chamando: Ne, vem jantar, Ne.
Era necessário sair daquilo. Tomar força. Crescer no nome e na vida.
Arrumou um emprego. E como, ao contrário de sua teoria, era sua incompetência, a razão do seu fracasso, foi, dia a dia, fazendo bobagens sem fim atuando como ajudante dentro de uma empresa de etiquetas.
O chefe dava berros constantes. Mas seu auge ali dentro foi quando, ao ser chamado a sala da gerência, ouviu:
Seu energúmeno inútil débil estúpido, veja se trabalha direito!!!!!
Neco encheu o peito. Puxa. Energúmeno? Palavra boa. E os acentos todos?
Agora, sim! Agora, sim, senhor! A vida ia dar certo!
Tinha pouca coisa na vida porque acostumara-se a essa diminuição.
Culpa da mãe. Era ela a causadora de tudo, visto que ia chamando o filho por nomes cada vez menores.
Se, ao contrário, aumentasse seus apelidos, gritasse por ele usando superlativos, colocasse seu nome em frases bem longas, usando proparoxítonas, acentuando tudo com empenho e consideração...
Mas, os acentos também quase estão em desuso. Fora de moda. Ideia, que era uma palavra tão certa para se botar um acento, já nem se acentua mais. Se ideia caiu, que dirá as outras tantas palavras que nem tanta importância tem?
Caiu Maneco, também. Caiu Manoel, Manoelzinho, Manequinho. Ficou Neco. E, para desespero do moço, ouvira, outro dia, a mãe, bem baixinho, chamando: Ne, vem jantar, Ne.
Era necessário sair daquilo. Tomar força. Crescer no nome e na vida.
Arrumou um emprego. E como, ao contrário de sua teoria, era sua incompetência, a razão do seu fracasso, foi, dia a dia, fazendo bobagens sem fim atuando como ajudante dentro de uma empresa de etiquetas.
O chefe dava berros constantes. Mas seu auge ali dentro foi quando, ao ser chamado a sala da gerência, ouviu:
Seu energúmeno inútil débil estúpido, veja se trabalha direito!!!!!
Neco encheu o peito. Puxa. Energúmeno? Palavra boa. E os acentos todos?
Agora, sim! Agora, sim, senhor! A vida ia dar certo!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
A vista
Descobriu-se além de todos eles.
Cobriu-se apaixonado pela própria pele.
Coloriu a boca, rasgou as vestes todas,
gozou em gritos calibrosos,
e ardeu em febre.
Ardeu em febre.
Cobriu-se além de todos eles.
Descobriu-se apaixonado pela própria pele.
Limpou a boca, costurou as vestes todas,
chorou em sussurros límpidos,
e esfriou até a morte.
Esfriou até a morte.
Caminhou como quem caminha ao vento.
Achou como quem acha ouro.
Sentou num muro alto.
Apreciou a vista dele mesmo.
Apreciou a vista dele mesmo.
Cobriu-se apaixonado pela própria pele.
Coloriu a boca, rasgou as vestes todas,
gozou em gritos calibrosos,
e ardeu em febre.
Ardeu em febre.
Cobriu-se além de todos eles.
Descobriu-se apaixonado pela própria pele.
Limpou a boca, costurou as vestes todas,
chorou em sussurros límpidos,
e esfriou até a morte.
Esfriou até a morte.
Caminhou como quem caminha ao vento.
Achou como quem acha ouro.
Sentou num muro alto.
Apreciou a vista dele mesmo.
Apreciou a vista dele mesmo.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
1+1
Estava afoita fazendo compras no supermercado.
Demorava mais por conta do antigo hábito de só comprar em números pares.
Dez laranjas. Nem nove. Nem onze.
Quatro maçãs. Nem três. Nem cinco.
Muitas vezes, perdia-se na conta, e era necessário voltar do início. Um, dois...
A vida era para ser vivida, feita e dirigida em pares. Essa é a verdade, pensava consigo.
Era feliz assim.
Não sabia, mas, perto dela, estava um senhorzinho. Noventa anos.
Esse comprava apenas um de cada. Um pepino, uma cenoura, um mamão.
Ao chegar em casa, ele, pacientemente, repartia tudo coma esposa.
Eram felizes assim.
A beleza da vida: cada um multiplica do seu jeito.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
O alvo
Nem só, nem nunca
nem teto, nem burca.
Somente lindo e plenamente
enroscado na boca tua.
E, em caso de choro ou espanto,
que seja teu, meu encanto
que seja lua, tua noite
que seja cega, tua foice.
Que não haja cortes
nem mistérios.
E, em caso de riso ou pranto,
seja eu, teu sopro e canto
que sejamos nós, sensatos arqueiros
a mandar nossas flechas além de nós mesmos.
nem teto, nem burca.
Somente lindo e plenamente
enroscado na boca tua.
E, em caso de choro ou espanto,
que seja teu, meu encanto
que seja lua, tua noite
que seja cega, tua foice.
Que não haja cortes
nem mistérios.
E, em caso de riso ou pranto,
seja eu, teu sopro e canto
que sejamos nós, sensatos arqueiros
a mandar nossas flechas além de nós mesmos.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
O sexo de cada um (Ou: Sorveteria) (Ou: Comer faz bem)
Era imensa.
290kg.
Sobrava em todos os lugares, e seus pés minúsculos mal podiam com ela.
As mãos, também incrivelmente pequenas, acompanhavam toda a falta de proporção.
Menor que os membros, somente o marido. Franzino, levemente cabisbaixo, submisso diante daquele tamanho de mulher com a qual casara.
Entraram na sorveteria. Ela, como sempre, a frente. Decidida. Olhos firmes de quem sabe exatamente o que quer. Logo sentou-se ao lado de um casal. Antes, tirou a bolsa da outra moça que ali repousava.
Essa bolsa é sua? Perguntou em tom de crítica.
A vizinha sorriu, tirou a bolsa da cadeira, e deu espaço para a outra sentar-se.
O marido veio em seguida. Encontrou a mulher aflita, a espera de sua taça gigante. Pedi um dos bons. Disse a esposa. E completou para que todos ouvissem: Não quero nada diet, hein? Garçonete? Olha, não me traga nada diet.
A pobre atendente, arregalou os olhos e disse: Jamais. Não, senhora. Vai vir tudo como o pedido.
Assim que chegou a taça, a macro mulher devorou em segundos em colheradas avassaladoras. O marido, cúmplice daquela orgia, dizia:
Veja, benzinho, como aqui que está escorrendo. Veja, aqui tem mais um pouco.
Ela lambia a taça, a colher, os beiços.
Acabou de devorar tudo no momento exato em que chegava a taça do marido.
Ele, educadamente, ofereceu a sua mulher uma provada daquela maravilha.
Ela negou, porém, prontamente, com outra colher em punhos foi cavocando a sobremesa do parceiro. E ia dando sua ordens. Voz forte:
Fulano, coma essa fruta que está embaixo. Coma. Coma esse creme. Não quer mais? Coma tudo. Olha este pedaço, que beleza.
O marido não respondia. Apenas tentava salvar uma parte ou outra, já na certeza de que não sobraria nada para ele. A mulher mandava que ele comesse, mas atacava tudo sem deixar espaço para a colher dele.
Que lástima, ele pensou. Mesmo assim, ao final, esticou as mãos para ela. Esgotados. Cada um faz sexo como sabe. Essa era a verdade.
Ficaram ali, dedos entrelaçados. Acenderiam um cigarro, se fosse permitido.
O marido foi pagar a conta e disse: Vou buscar o carro, já venho.
Demorou. Segurando no volante, respirou fundo. Cúmplice. Macho.
Parou o carro frente a porta; a mulher já tinha se arrastado até a calçada.
Foram embora. Ele decidido a tomar uma ducha, ela decidida a parar na padaria.
290kg.
Sobrava em todos os lugares, e seus pés minúsculos mal podiam com ela.
As mãos, também incrivelmente pequenas, acompanhavam toda a falta de proporção.
Menor que os membros, somente o marido. Franzino, levemente cabisbaixo, submisso diante daquele tamanho de mulher com a qual casara.
Entraram na sorveteria. Ela, como sempre, a frente. Decidida. Olhos firmes de quem sabe exatamente o que quer. Logo sentou-se ao lado de um casal. Antes, tirou a bolsa da outra moça que ali repousava.
Essa bolsa é sua? Perguntou em tom de crítica.
A vizinha sorriu, tirou a bolsa da cadeira, e deu espaço para a outra sentar-se.
O marido veio em seguida. Encontrou a mulher aflita, a espera de sua taça gigante. Pedi um dos bons. Disse a esposa. E completou para que todos ouvissem: Não quero nada diet, hein? Garçonete? Olha, não me traga nada diet.
A pobre atendente, arregalou os olhos e disse: Jamais. Não, senhora. Vai vir tudo como o pedido.
Assim que chegou a taça, a macro mulher devorou em segundos em colheradas avassaladoras. O marido, cúmplice daquela orgia, dizia:
Veja, benzinho, como aqui que está escorrendo. Veja, aqui tem mais um pouco.
Ela lambia a taça, a colher, os beiços.
Acabou de devorar tudo no momento exato em que chegava a taça do marido.
Ele, educadamente, ofereceu a sua mulher uma provada daquela maravilha.
Ela negou, porém, prontamente, com outra colher em punhos foi cavocando a sobremesa do parceiro. E ia dando sua ordens. Voz forte:
Fulano, coma essa fruta que está embaixo. Coma. Coma esse creme. Não quer mais? Coma tudo. Olha este pedaço, que beleza.
O marido não respondia. Apenas tentava salvar uma parte ou outra, já na certeza de que não sobraria nada para ele. A mulher mandava que ele comesse, mas atacava tudo sem deixar espaço para a colher dele.
Que lástima, ele pensou. Mesmo assim, ao final, esticou as mãos para ela. Esgotados. Cada um faz sexo como sabe. Essa era a verdade.
Ficaram ali, dedos entrelaçados. Acenderiam um cigarro, se fosse permitido.
O marido foi pagar a conta e disse: Vou buscar o carro, já venho.
Demorou. Segurando no volante, respirou fundo. Cúmplice. Macho.
Parou o carro frente a porta; a mulher já tinha se arrastado até a calçada.
Foram embora. Ele decidido a tomar uma ducha, ela decidida a parar na padaria.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Para tudo tem um jeito
Tinha compulsão por compra.
Decidiu procurar um especialista.
Saiu com a receita em mãos.
Comprou duas caixas de remédio.
Depois, foi de psiquiatra a psiquiatra, só para ter remédios para comprar.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
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