quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Maré de azar

Sentou-se com duas pedras na mão.
Limpou. 
Ficaram tão brilhantes e lindas que teve vontade de guardar.
Guardou.
Levantou-se com duas pedras no bolso.
Estavam tão puras em seu bolso que teve vontade de pegar.
Pegou.
Passou o dedo nas duas pedras.
Cortou.
Acabou, ali, o encantamento.
Jogou.
Decidiu que era mais prudente brincar com algo maleável.
Foi até o mar para nadar nas águas.
Afogou.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Rede cheia (Ou: O menino) (Ou: Birisca)

Passou a infância pescando, ali, com o avô.
Único neto homem, fez uma aliança de afeto.
Profunda.
Intensa.
Agora, voltara. Era uma tentativa de buscar alguma coisa que tinha ficado ali.
Perdida nas paredes. Na geladeira antiga. No forno a lenha. Na bomba d´água.
Procurou no escuro. Acendeu a memória. Tateou as prateleiras.
O baralho espanhol para jogar birisca, não tinha mais. Uma mão. Uma rodada.
Nada tinha cheiro. Tanto tempo. Era um homem feito. E não tinha cheiro, ali.
Achou a vara de pesca que tantas vezes viu o avô carregar.
Primeiro, segurou firme. Fechou os olhos, e lembrou-se do desejo infantil de um dia pescar com ela.
Os peixes seriam todos seus, como eram do avô.
Limpou com cuidado. Chorou ao desatar a volta que prendia a linha com o chumbo, na argola da vara.
Aquele nó foi dado pelas mãos fortes que ele conheceu tão bem. O último laço. O último cuidado.
Carregou tudo firmemente. Fez planos de resgate.
Voltou de lá sem nenhum peixe, mas as ausências, todas, eram mais suas, agora. As presenças mais nuas.
E ele foi menino, então.

terça-feira, 31 de julho de 2012

As duas irmãs (Ou: A mesma)

Moravam, duas irmãs, na mesma casa. Até que, um dia, perderam-se. 
Dentro de seus próprios caminhos, em ruelas que ligavam as tripas e o coração.
A princípio, não temeram. Afinal, não poderiam ir muito além delas mesmas. 
A princípio, não choraram. Afinal, não poderiam sofrer, estando livres.
A princípio, não correram. Afinal, estavam perto.
Mas, numa noite escura, abrindo os olhos, e vendo que suas mãos estavam geladas,
as irmãs gritaram, uma para a outra, a fim de que se ouvissem e se achassem e voltassem a morar perto do calor do mesmo sangue.
Não se ouviram. Não se viram. Não dormiram mais.
Foi preciso esperar passar o inverno todo e, talvez, uma outra estação, e só então, sem neve, sem frio, sem medo, acharam-se. Acharam-se. E perceberam que, na verdade, estiveram sempre no mesmo lugar. Mas de costas uma para outra. A partir desse dia, só andaram de mãos dadas. E quentes.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Até que tudo fique claro


Tinha terror noturno. Como se o próprio mal sussurrasse em seus ouvidos.
Acordou, certa noite, mergulhada no medo e no suor.
Ligou para ele e ele não estava. Precisava de música, mas não tinha ninguém para cantar uma balada em seus ouvidos, e acalmar seus gritos, seu medo...
Pensava estar curada. Mas, no fundo, estava só.
Ela precisava de duas coisas: algumas gotas de Rivotril e um copo de água.
Mas colo de mãe já valia. Da mãe de sua infância. Daquela que, ao ouvir seu pavor durante maus sonhos, ia até seu quarto, e segurava seu rosto, até que tudo ficasse claro.
Ela precisava de três coisas: algumas gotas de Rivotril, 
um copo de água e colo de quem quer que fosse.
Mas colo de mãe era o que mais valia. A mãe de sua infância.
Pensava estar curada. Mas, no fundo, era só.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Enterro (Ou: A caráter)


Ficou em pé na frente do espelho.
Pensou: Não sofra. E deu um tapa na própria cara para não esquecer.
Amarrou firme o nó da gravata.
Pensou: Não caia. E deu um tapa na própria cara para não esquecer.
Vestiu o paletó preto.
Pensou: Não retroceda. E deu um tapa na própria cara para não esquecer.
Colocou os óculos escuros. Bochechas quentes.
Pegou uma pá, e foi enterrar suas ilusões.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Melhor prevenir (Ou: Bertioga é logo ali)

Com urgência, gritou da janela:
Volta, Pedro, senão eu pulo!

Pedro, parado no meio da rua, olhou para o segundo andar de onde ela gritava.
Faça isso, Valentina. Morrer, você não vai.

Não. Mas minha mãe terá que vir de Bertioga para cuidar de mim. Uma perna quebrada pode demorar meses para sarar.
...
Calmamente, Valentina foi até a porta, e recebeu de volta Pedro que, só para garantir, trouxe flores.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Presente (Ou: Vela)


A despeito de ela ser surda, ele trouxe música de presente para ela.
A despeito de saber-se surda, ela ouviu.
Ouvindo, maravilhou-se.
Maravilhando-se, viveu.
E descobriu que, até ali, tinha sido cega, também.
Mas, agora, vê.
E ouve.
E vive.