Nasceu morto.
Ninguém disse a ele.
Não lhe deram um nome, mas também não enterraram seu corpo miúdo.
Sua mãe já tinha tentado ter outros filhos. Perdendo todos, foi ele, o sucesso.
Mas não estava morto? Sim, estava. Porém, tudo é relativo. Diante de seus irmãos que não tinham conseguido viver naquele útero mais que três meses, ele era um bom bebê. Nove meses, afinal.
Cabelos bem pretos. Bem lisos. A ponto de ficarem em pé.
Cuidaram dele. E já que estava morto, não o deixaram viver.
Colocaram roupas. Fingiram que era um bebê incrível.
Diziam aos amigos: Olhem que lindo. Cabelos para cima. Vejam, tem 9 meses e anda.
Mas todos sabiam que aquilo era uma mentira. Menos o bebê. Ninguém tinha contado para ele.
Ninguém teve coragem de dizer em seus pequenos ouvidos: Você fracassou, também.
Cresceu morto.
Quando era perguntado pela própria vida por onde gostaria de ir, não tinha resposta.
Percebia que os outros tomavam rumo, decidiam coisas, escolhiam suas faculdades, abandonavam suas escolhas, viviam amores, deixavam seus amores. E ele não podia.
Aos poucos, como não era capaz de viver, começou a sabotar a vida dos outros que viviam.
E, por não compreender que os outros tinham direitos, afinal, tinham realmente nascido, fazia de tudo para que a felicidade alheia durasse bem pouco. E mesmo os que o amavam foram precisando de ar, porque ele, apesar de não respirar, tirava o ar de quem vivia.
Um dia, olhou para si mesmo e tomou um susto. Estou morto, pensou. Como não tinha visto antes?
Tocou sua pele, seus cabelos escuros, seus olhos bem grandes e viu que tinha sido uma mentira. Estava morto. E viu uma coisa muito pior, estava matando quem estava a sua volta por não deixar vida para ninguém.
Foi então que deitou-se embaixo de uma grande árvore. Com raízes bem profundas. Tronco gigantesco.
Deitou-se e ficou na posição que conhecia bem. Fetal. Fechou os olhos e, finalmente, morreu. Morreu para ele e para os outros. E, para dizer bem a verdade, finalmente entendeu a vida e foi feliz.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Para cada coisa
Para devaneio: contenção.
Para medo: ambição
Para asma: sopro.
Para loucura: camisa de
força.
Para sexo: camisa de vênus.
Para rato: ratoeira.
Para todo o resto:
dicionário.
Para espinha: apertão.
Para estrada: contramão
Para espírito: retidão.
Para angústia: remédio.
Para anel: ourives
Para aliança: decisão.
Para todo o resto:
dicionário.
Para mijo: latrina.
Para doce: insulina.
Para voo: paraquedas.
Para todos: sensatez.
Para poucos: coragem.
Para sangue: Tarantino.
Para nós: decolagem.
Para todo o resto dicionário.
Para isso: aquilo.
Para chuva: pulmões.
Para justos: juízo.
Para juízes: amputação.
Para membros: rigidez.
Para todo o resto: lucidez.
Só para inveja: salafrário.
Só para inveja: armário.
Só para inveja: merda.
Só para inveja: cadeado.
Só para inveja: exaustão.
Só para inveja: frustração.
E
para todas as outras coisas: dicionário.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Ícone
Decidiu ser uma mulher minimalista.
Parou de comer.
Passou a pesar 35 kg.
Vestiu uma camiseta branca como vestido.
Foi aplaudida de pé.
Era o que todos comentavam enquanto velavam seu corpinho fashion:
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Sopro
Colocou uma flor de angélica no parapeito e perfumou os dedos.
Os olhos molhados, brilhantes, brilhosos, visivelmente intrusos no mundo.
Olhava a sua volta uma nova vida, embebida em um licor de cassis.
Passara a vida em cárcere privado, com banheiro privativo, e suas podridões passaram a fazer parte dele mesmo. Cheirava a bosta. Viveu tempo demais sequestrado perto das suas evacuações e das alheias, também.
Sabia que era necessário tomar um banho. Saiu de onde estava e encheu um balde com água. Entrou. Não duvidou caber ali. Sabia que havia diminuído muito de tamanho. Foi ficando com a medida exata daquilo que acreditava que fosse: quase nada. Saiu do banho, perfumado. E parecia alguns centímetros maior. Voltou ao parapeito e viu um pássaro grená e azul. Sorriu. Cresceu uns centímetros.
Decidiu dentro do próprio peito que poderia ser muito além do que estava sendo. E, já que suas correntes haviam cedido, já que não era mais refém dele mesmo, muito menos dos outros, poderia deixar-se ao vento para que Deus soprasse novamente em suas narinas.
Deus, então, tomado de misericórdia, pegou aquele ser pelas costelas, e soprou profundamente.E disse: não se aparte mais. Quem se exclui da vida, não vive. Quem se expõe, vive. E, acima de tudo, quem não teme o novo, eterniza-se.
Saiu, aquele homem, para o mundo. E teve que abaixar-se um pouco na saída, porque não passava mais pela porta.
Os olhos molhados, brilhantes, brilhosos, visivelmente intrusos no mundo.
Olhava a sua volta uma nova vida, embebida em um licor de cassis.
Passara a vida em cárcere privado, com banheiro privativo, e suas podridões passaram a fazer parte dele mesmo. Cheirava a bosta. Viveu tempo demais sequestrado perto das suas evacuações e das alheias, também.
Sabia que era necessário tomar um banho. Saiu de onde estava e encheu um balde com água. Entrou. Não duvidou caber ali. Sabia que havia diminuído muito de tamanho. Foi ficando com a medida exata daquilo que acreditava que fosse: quase nada. Saiu do banho, perfumado. E parecia alguns centímetros maior. Voltou ao parapeito e viu um pássaro grená e azul. Sorriu. Cresceu uns centímetros.
Decidiu dentro do próprio peito que poderia ser muito além do que estava sendo. E, já que suas correntes haviam cedido, já que não era mais refém dele mesmo, muito menos dos outros, poderia deixar-se ao vento para que Deus soprasse novamente em suas narinas.
Deus, então, tomado de misericórdia, pegou aquele ser pelas costelas, e soprou profundamente.E disse: não se aparte mais. Quem se exclui da vida, não vive. Quem se expõe, vive. E, acima de tudo, quem não teme o novo, eterniza-se.
Saiu, aquele homem, para o mundo. E teve que abaixar-se um pouco na saída, porque não passava mais pela porta.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Um brinde
Pegou o cálice e encheu.
Ofereceu, com ódio, ao seu inimigo, dizendo:
Bebamos a sua sorte.
O inimigo bebeu e ficou corado.
Ele só molhou os lábios e morreu.
Disseram que foi infarto.
Mas, na verdade, foi podridão.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Maré de azar
Sentou-se com duas pedras na mão.
Limpou.
Ficaram tão brilhantes e lindas que teve vontade de guardar.
Guardou.
Levantou-se com duas pedras no bolso.
Estavam tão puras em seu bolso que teve vontade de pegar.
Pegou.
Passou o dedo nas duas pedras.
Cortou.
Acabou, ali, o encantamento.
Jogou.
Decidiu que era mais prudente brincar com algo maleável.
Foi até o mar para nadar nas águas.
Afogou.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Rede cheia (Ou: O menino) (Ou: Birisca)
Passou a infância pescando, ali, com o avô.
Único neto homem, fez uma aliança de afeto.
Profunda.
Intensa.
Agora, voltara. Era uma tentativa de buscar alguma coisa que tinha ficado ali.
Perdida nas paredes. Na geladeira antiga. No forno a lenha. Na bomba d´água.
Procurou no escuro. Acendeu a memória. Tateou as prateleiras.
O baralho espanhol para jogar birisca, não tinha mais. Uma mão. Uma rodada.
Nada tinha cheiro. Tanto tempo. Era um homem feito. E não tinha cheiro, ali.
Achou a vara de pesca que tantas vezes viu o avô carregar.
Primeiro, segurou firme. Fechou os olhos, e lembrou-se do desejo infantil de um dia pescar com ela.
Os peixes seriam todos seus, como eram do avô.
Limpou com cuidado. Chorou ao desatar a volta que prendia a linha com o chumbo, na argola da vara.
Aquele nó foi dado pelas mãos fortes que ele conheceu tão bem. O último laço. O último cuidado.
Carregou tudo firmemente. Fez planos de resgate.
Voltou de lá sem nenhum peixe, mas as ausências, todas, eram mais suas, agora. As presenças mais nuas.
E ele foi menino, então.
Único neto homem, fez uma aliança de afeto.
Profunda.
Intensa.
Agora, voltara. Era uma tentativa de buscar alguma coisa que tinha ficado ali.
Perdida nas paredes. Na geladeira antiga. No forno a lenha. Na bomba d´água.
Procurou no escuro. Acendeu a memória. Tateou as prateleiras.
O baralho espanhol para jogar birisca, não tinha mais. Uma mão. Uma rodada.
Nada tinha cheiro. Tanto tempo. Era um homem feito. E não tinha cheiro, ali.
Achou a vara de pesca que tantas vezes viu o avô carregar.
Primeiro, segurou firme. Fechou os olhos, e lembrou-se do desejo infantil de um dia pescar com ela.
Os peixes seriam todos seus, como eram do avô.
Limpou com cuidado. Chorou ao desatar a volta que prendia a linha com o chumbo, na argola da vara.
Aquele nó foi dado pelas mãos fortes que ele conheceu tão bem. O último laço. O último cuidado.
Carregou tudo firmemente. Fez planos de resgate.
Voltou de lá sem nenhum peixe, mas as ausências, todas, eram mais suas, agora. As presenças mais nuas.
E ele foi menino, então.
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