Colocou uma flor de angélica no parapeito e perfumou os dedos.
Os olhos molhados, brilhantes, brilhosos, visivelmente intrusos no mundo.
Olhava a sua volta uma nova vida, embebida em um licor de cassis.
Passara a vida em cárcere privado, com banheiro privativo, e suas podridões passaram a fazer parte dele mesmo. Cheirava a bosta. Viveu tempo demais sequestrado perto das suas evacuações e das alheias, também.
Sabia que era necessário tomar um banho. Saiu de onde estava e encheu um balde com água. Entrou. Não duvidou caber ali. Sabia que havia diminuído muito de tamanho. Foi ficando com a medida exata daquilo que acreditava que fosse: quase nada. Saiu do banho, perfumado. E parecia alguns centímetros maior. Voltou ao parapeito e viu um pássaro grená e azul. Sorriu. Cresceu uns centímetros.
Decidiu dentro do próprio peito que poderia ser muito além do que estava sendo. E, já que suas correntes haviam cedido, já que não era mais refém dele mesmo, muito menos dos outros, poderia deixar-se ao vento para que Deus soprasse novamente em suas narinas.
Deus, então, tomado de misericórdia, pegou aquele ser pelas costelas, e soprou profundamente.E disse: não se aparte mais. Quem se exclui da vida, não vive. Quem se expõe, vive. E, acima de tudo, quem não teme o novo, eterniza-se.
Saiu, aquele homem, para o mundo. E teve que abaixar-se um pouco na saída, porque não passava mais pela porta.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Um brinde
Pegou o cálice e encheu.
Ofereceu, com ódio, ao seu inimigo, dizendo:
Bebamos a sua sorte.
O inimigo bebeu e ficou corado.
Ele só molhou os lábios e morreu.
Disseram que foi infarto.
Mas, na verdade, foi podridão.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Maré de azar
Sentou-se com duas pedras na mão.
Limpou.
Ficaram tão brilhantes e lindas que teve vontade de guardar.
Guardou.
Levantou-se com duas pedras no bolso.
Estavam tão puras em seu bolso que teve vontade de pegar.
Pegou.
Passou o dedo nas duas pedras.
Cortou.
Acabou, ali, o encantamento.
Jogou.
Decidiu que era mais prudente brincar com algo maleável.
Foi até o mar para nadar nas águas.
Afogou.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Rede cheia (Ou: O menino) (Ou: Birisca)
Passou a infância pescando, ali, com o avô.
Único neto homem, fez uma aliança de afeto.
Profunda.
Intensa.
Agora, voltara. Era uma tentativa de buscar alguma coisa que tinha ficado ali.
Perdida nas paredes. Na geladeira antiga. No forno a lenha. Na bomba d´água.
Procurou no escuro. Acendeu a memória. Tateou as prateleiras.
O baralho espanhol para jogar birisca, não tinha mais. Uma mão. Uma rodada.
Nada tinha cheiro. Tanto tempo. Era um homem feito. E não tinha cheiro, ali.
Achou a vara de pesca que tantas vezes viu o avô carregar.
Primeiro, segurou firme. Fechou os olhos, e lembrou-se do desejo infantil de um dia pescar com ela.
Os peixes seriam todos seus, como eram do avô.
Limpou com cuidado. Chorou ao desatar a volta que prendia a linha com o chumbo, na argola da vara.
Aquele nó foi dado pelas mãos fortes que ele conheceu tão bem. O último laço. O último cuidado.
Carregou tudo firmemente. Fez planos de resgate.
Voltou de lá sem nenhum peixe, mas as ausências, todas, eram mais suas, agora. As presenças mais nuas.
E ele foi menino, então.
Único neto homem, fez uma aliança de afeto.
Profunda.
Intensa.
Agora, voltara. Era uma tentativa de buscar alguma coisa que tinha ficado ali.
Perdida nas paredes. Na geladeira antiga. No forno a lenha. Na bomba d´água.
Procurou no escuro. Acendeu a memória. Tateou as prateleiras.
O baralho espanhol para jogar birisca, não tinha mais. Uma mão. Uma rodada.
Nada tinha cheiro. Tanto tempo. Era um homem feito. E não tinha cheiro, ali.
Achou a vara de pesca que tantas vezes viu o avô carregar.
Primeiro, segurou firme. Fechou os olhos, e lembrou-se do desejo infantil de um dia pescar com ela.
Os peixes seriam todos seus, como eram do avô.
Limpou com cuidado. Chorou ao desatar a volta que prendia a linha com o chumbo, na argola da vara.
Aquele nó foi dado pelas mãos fortes que ele conheceu tão bem. O último laço. O último cuidado.
Carregou tudo firmemente. Fez planos de resgate.
Voltou de lá sem nenhum peixe, mas as ausências, todas, eram mais suas, agora. As presenças mais nuas.
E ele foi menino, então.
terça-feira, 31 de julho de 2012
As duas irmãs (Ou: A mesma)
Moravam, duas irmãs, na mesma casa. Até que, um dia, perderam-se.
Dentro de seus próprios caminhos, em ruelas que ligavam as tripas e o coração.
A princípio, não temeram. Afinal, não poderiam ir muito além delas mesmas.
A princípio, não choraram. Afinal, não poderiam sofrer, estando livres.
A princípio, não correram. Afinal, estavam perto.
Mas, numa noite escura, abrindo os olhos, e vendo que suas mãos estavam geladas,
as irmãs gritaram, uma para a outra, a fim de que se ouvissem e se achassem e voltassem a morar perto do calor do mesmo sangue.
Não se ouviram. Não se viram. Não dormiram mais.
Foi preciso esperar passar o inverno todo e, talvez, uma outra estação, e só então, sem neve, sem frio, sem medo, acharam-se. Acharam-se. E perceberam que, na verdade, estiveram sempre no mesmo lugar. Mas de costas uma para outra. A partir desse dia, só andaram de mãos dadas. E quentes.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Até que tudo fique claro
Tinha terror noturno. Como se
o próprio mal sussurrasse em seus ouvidos.
Acordou, certa noite,
mergulhada no medo e no suor.
Ligou para ele e ele não
estava. Precisava de música, mas não tinha ninguém para cantar uma balada em
seus ouvidos, e acalmar seus gritos, seu medo...
Pensava estar curada. Mas, no
fundo, estava só.
Ela precisava de duas coisas:
algumas gotas de Rivotril e um copo de água.
Mas colo de mãe já valia. Da
mãe de sua infância. Daquela que, ao ouvir seu pavor durante maus sonhos, ia até
seu quarto, e segurava seu rosto, até que tudo ficasse claro.
Ela precisava de três coisas:
algumas gotas de Rivotril,
um copo de água e colo de quem quer que fosse.
Mas colo de mãe era o que
mais valia. A mãe de sua infância.
Pensava estar curada. Mas, no fundo, era só.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Enterro (Ou: A caráter)
Ficou em pé na frente do
espelho.
Pensou: Não sofra. E deu um
tapa na própria cara para não esquecer.
Amarrou firme o nó da
gravata.
Pensou: Não caia. E deu um
tapa na própria cara para não esquecer.
Vestiu o paletó preto.
Pensou: Não retroceda. E deu
um tapa na própria cara para não esquecer.
Colocou os óculos escuros.
Bochechas quentes.
Pegou uma pá, e foi enterrar
suas ilusões.
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