segunda-feira, 14 de maio de 2012

Deixa


Deixa disso. O amor é maior que o rito.
Deixa de cara, de para, de manha. Amor é tara, é fala, é gana.
Deixa de onda, de cores confusas, de saudades obtusas.
Deixa de vir e ir e ficar onde não estou.
Ame só o amor, ame só meus olhos e meus traços.
Engana-se quem vive na amargura dos retratos
Dos sonos antigos, das sujeiras nos pratos.
Deixa disso. Vem ser infinito.
Vem casar num horizonte traçado nas minhas costas nuas.
Vem dormir onde não se dorme
Em montanhas e vales e planícies artificiais.
Vem dourar. Deixa disso.
Vem ser uma canção transpirando nos meus ouvidos.
Deixa disso, vai?
Vem ser o amor. Só isso.
Vem experimentar, deixar de ser siso.
Quem não viveu dentro de alguém, não sabe o que é a urgência da vida.
Viver dentro e morrer, um pouco, fora. Explorar e urgir por horas.
Vez ou outra, tomando água.
Deixa disso porque eu não vou embora.
Deixa disso porque minhas malas estão aqui, ainda
Fica vai? Fica porque as minhas roupas ainda secam nas suas, e
O mundo, o tudo, o de mais puro e o de mais sujo ainda precisam de nós.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Um passo a frente, por favor.


O palhaço (Ou: Medo de Escuro)


Fechou os olhos na espera de um pensamento.
Ele sabia que teria por ali, nos arredores de suas vivências, nos subúrbios de seu palato, uma ideia a estalar seus ânimos.
Bastava um só encontro. Consoantes e vogais. E, então, diria exatamente o que sentia.
Ele era um palhaço só, na solidão de seus vermelhos.
Ele era um palhaço cru, nas manifestações de seus azuis.
Ele era um palhaço nu, nas crucificações de um picadeiro.
Que solidão era aquela que, compartilhada, ficaria mais só? Ó.
Ele poderia dizer a todos, tudo o que pensa, mas não diz.
A vida dele era tão dele, mas aqueles todos, outros, doidos, hipócritas, em órbitas alheias a dele, insistiam em dizer coisas podres em seu ouvido de palhaço.
Com que direito?
Era nisso que o palhaço pensava, enquanto abotoava seus botões.
Pensava que se tivesse uma só aventura, um jeito delicado, porém, eficaz de afastar todos os outros animais que viviam debaixo de sua tenda, o faria.
Mas era nisso que se perdia. Quando dava por si, tinha explicações na ponta da língua.
Para que?
Não sabia ele que a vida era só dele, e para ele que viviam suas próprias decisões? E que, uma vez decididas, eram para ele só vividas em caminhos únicos que caberiam no centro de sua mão?
Mas, no circo, viviam críticos. E os críticos sempre sabem o que dizer.
São deles os julgamentos todos, e eles acreditam saber o que na verdade não sabem.
Eles nem conhecem o palhaço. Não sabem por quem seus lábios imploram, nem suas lágrimas choram, nem sua língua grita, nem seu pranto dobra.
Quem são eles que só aparecem no fim do espetáculo? Que nunca levantaram uma lona, nunca esticaram um vestido, nunca domaram um menino, nunca sujaram a cara?
E o palhaço, poeta, patife, remoia essas coisas, enquanto ria.
Riso de quem sabe. Riso de quem foi viver a vida e não volta mais. Pelo menos, não para os mesmos horizontes.
Terminou de se abotoar, pegou seus sapatos engraçados, piscou para sua própria sombra, deu as mãos com sua semeadura e foi.
Foi ser palhaço. Foi ser feliz. Talvez, não de imediato, porque a vida tem rugas, mas foi ser o que deveria ser. A boca vermelha borrada de beijo e o azul do olho roubado do céu da madrugada.
Senhoras e Senhores, o circo está aberto. E o palhaço foi viver a vida que vocês só sonham, porque são covardes ao extremo, e tem medo do escuro da dúvida.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Treino de crianças


Mario, você conversou com o Guilherme antes desse jogo?
─ Claro. Expliquei tudo. 
─ Sei, não. Ele tá com cara de choro.
─ Claro! O técnico deixa o menino no banco!
─ O time é grande, Mario. O homem precisa fazer um rodízio da meninada. Você sabe como são os pais. Um bando de loucos. Dificilmente alguém é como nós. Lembra daquela vez que a mãe do Paulinho jogou uma lata de refrigerante na cabeça do juiz?
─ O sem vergonha expulsou o filho dela, Mônica! Fez muito bem. Eu também jogaria.
─ Como assim? O menino deu um golpe de judô no outro do mesmo time. Justo aquele que era asmático.
─ Mônica, isso aqui é futebol, minha filha. Não é balé, não. Que bom que deu o golpe. Além de bom no futebol, ele é ótimo em luta. Parabéns pra mãe dele que está criando bem o menino. Eu jogaria a lata também
─ A lata estava cheia, Mário. O pobre do juiz foi hospitalizado. Dizem que saiu do campo completamente fora de órbita. A Soninha me disse que, enquanto colocavam o homem na maca, ele cantava a música da Wanderléa. Sabe aquela? Achei o fim. A gente tem que saber separar as coisas. Eu sei muito bem que isso aqui é só um jogo de crianças. Quero que o Guilherme saiba que a mãe dele, pelo menos, tem maturidade.


─ Olha, lá, Mônica, vão colocar o Guilherme.
─ Ai, meu Deus. Vai filho! Corre! Vai! Pega a bola, pega a bola! Dribla, Gui. Dribla! Boa, filho. Não chora, Guilherme. Valeu, filho!!!!
─ Para de gritar, Monica. Tá atrapalhando o garoto.
─ Sou mãe, Mario. Se eu não der força pro menino, ele cresce com baixa auto-estima. Olha lá! Aquele grandão tá perseguindo o Gui. Chuta ele, Gui. Mamãe tá aqui. Não chora, filho. Não chora!
─ Para, Monica. Você vai arrumar confusão.
─ Não paro, não. Grito mesmo. Vai Gui. Você tá indo muito bem, filho. Você é melhor que todos eles, meu amor. Eles, perto de você, são uns frouxos, meu bem.

As outras mães que, até então, estavam quietas, olharam para Monica com o olhar que só quem já viu uma mãe ofendida conhece. É um olhar que varia entre a fúria de um neanderthal, e a cara de uma hiena selvagem e enlouquecida. Para saber bem que tipo de olhar é, basta chegar perto de uma mãe e dizer: Meu filho é melhor que o seu. Ela pode ser a Indira Ghandi. Pode ser pós- graduada em meditação. Pode estar até em coma. Veja se ela não arregaçará os dentes. Veja se ela não pegará uma lata de refrigerante cheia para tacar em você.

Mas, já era tarde para qualquer volta. Mário até pensou em puxar Monica, mas uma manada de mulheres já estava vindo na direção dela.
─ Corre, Monica! Corre!

Deu tempo do juiz - o mesmo- traumatizado, esconder-se atrás do bandeirinha.

Tudo isso já tem um mês. As aulas de futebol estão suspensas. Mônica recupera-se bem. Os médicos estão bem esperançosos. Mario tem treinado Guilherme no quintal de casa. E entre um drible e outro tem ensinado ao menino uns golpes de judô. Nunca se sabe...

A sorte da menina que escrevia (Ou: Naftalina)


Era quase naftalina. 
Era esse o cheiro dos seus escritos, das suas parlendas, dos seus enunciados. Uma leve rouquidão onde já teve um grito.
Onde se escondiam, agora, as metáforas, as rimas fáceis, os choros contidos em uma melodia repetida em versos, ou em prosa, ou em conto ou em qualquer coisa que se mexa na boca? Na língua?
É isso! Na língua que, viva dentro da boca, repetia palavras, muitas, amarradas em dança solta, com véus, com guizos, com pequenos cordões enrolados num ditongo ou num hiato.
Eram modelos, às vezes repetidos, às vezes, uma vez usados, mas eram modelos...falhos, humanos, crescentes, dourados. 
Agora, era uma rampa que ia em mão única para beira de um penhasco e cadê palavra, cadê história, cadê ofício, cadê dicionário. Era assim? Era um capricho do cérebro? Alguma coisa se perdeu dentro das curvas e ondas e neurônios e cabeleira e olha que nem era cachaça, nem era falta de uso corriqueiro. Era só mesmo um afastamento da escrita, das teclas pretas e brancas, do seu piano de gramática. Mas a leitura, que juram servir para a não-morte do pensamento, esteve com ela sempre. E nada.
Dá uma vergonha ler coisa boa; dá um sentido de escrita pessoal precipitada. Um amargo sentimento de total perda de tempo onde o tempo pode até ser inventado.
Era essa a sorte da menina que escrevia. Era o declínio do raciocínio, da linguagem, da matemática dos versos, das contas, das notas, das ausências, das presenças de suas fugas.
Ela, a menina, vai dando soquinhos de punho fechado e as coisas pulam sobre a mesa, e isso vai dando um caldo, um passa tempo, um som surdo, um som tocado e então vem aquele estalo que talvez a escrita não seja mesmo para ela, seja só por ela, seja para não publicação e sim para auto construção e, então, tudo bem.
Ela fica catando umas coisinhas sobre a cama e pensa em inúmeras rimas, constelações inteiras, subúrbios de pensamentos e vê sua imagem no vidro da janela e ela está bem, está justa, está séria, está decidida, está comedida, está uma colisão...Sai correndo para pular a vida como se pula corda, e o cheiro de naftalina vai com ela.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pra casar. (Ou: O caso Wellington Tererê)


Começou roendo as unhas. Toda mãe, em algum momento, nem que seja breve instante, rói a unha. Seja por desconcerto, por ódio, angústia, solidão, embaraço, ou qualquer outra coisa, ou ainda todas elas.
Essa, roía as unhas, por aquele minuto, enquanto, diante dela, Jorginho, filho único, de mãos dadas a namorada fazia cara de: “Então, mãe, diz alguma coisa”.

- É um prazer conceber, digo, conhecer você!
- Valeu, tia.

A menina tinha as pernas colocadas uma ao lado da outra, mas os joelhos estavam juntos, e os calcanhares ficavam distantes. Posição de jeca, pensou a mãe. Roia. O esmalte já tinha ido, faltava a borda do dedo, o dedo em si, talvez, com esforço, os cotovelos.

- Você faz o quê, meu bem?
- Tipo assim, em que sentido?

A mãe sentia o coração claramente dar soquinhos, e o fígado, aparentemente, tinha saído para dar umas voltas. Professora universitária, pós graduação em Boston, antropóloga, divorciada, frequente entre os que entendiam em que sentido ela falava as coisas.

- Pergunto se você estuda, trabalha... pensa....? ( A última palavra foi quase um balbucio)
- Ah!Tá! Tipo, já estudei, mas não gosto não. Tipo: Se der um dia faço supletivo e termino o colegial.
- Colegial? Quantos anos você tem, benzinho?
- Tipo, 21, mas nas revistas sai que tenho 18.

A mulher ria de nervoso, um risinho agudo, baixinho. Uma coisa nova. Ela poderia jurar que vinha de algum orifício desconhecido da sua alma. Era isso. A alma estava definitivamente furada.

- Você sai em revista? ( o risinho ficou mais alto)
- É, as vezes, por causa do caso do Wellington Tererê.

Estava concluído. O pâncreas resolveu acompanhar o fígado. A respiração acompanhava os soquinhos do coração. Parecia um soluço. Ela estava viva dentro de um soluço. Olhava a moça, os peitões armados. E as coxas? Cada uma parecia que tinha trazido uma amiga para acompanhar. Rijas, grandes, cavalares.

- E quem seria esse moço?

Daí, o filho que, até então, estava se segurando, não agüentou:

- Mãe!!! Wellington Tererê!!!! O melhor atacante da atualidade. O chute dele é uma bomba, mãe. Acabou de assinar um contrato na Europa. Milhões! O atacante do século.

O garoto estava chateadíssimo. Desdenhar da namorada já era o fim. Agora, não conhecer Wellington Tererê, era demais.
A mãe fez cara de ah ta e continuou:

- E que caso foi esse, benzinho (percebeu que era a terceira vez que chamava a moça de benzinho)
- Tipo, ele é meu marido. Daí, ele chegou outro dia e eu falei: ó tem um cara na parada. O nome dele é Jorginho, tipo, é cara fino e to te dexano.  Daí, ele me espancou. Eu fui no programa de TV e dei parte dele na polícia. Ele vai me pagar um nota. Vai ganhar em euro, né?

A mãe, já estava de pé, remexia nas gavetas a procura de um barbitúrico. Qualquer um servia. Podia ser antiácido, também; ou um valium, uma balinha de menta, um 38. Qualquer coisa valia.
Pensava nas economias que fez. Na primeira escola do Jorginho. Bilíngüe. Bilíngüe, meu Deus. Colegial no exterior. Lembrou da viagem à França para o menino conhecer a cultura, antes de começar o curso de francês. E a faculdade? E a faculdade? E os planos de pós graduação? E o parto? O menino não nascia nunca. Desgraçado. Se soubesse, deixaria ele lá entalado. Para agora, ele aparecer com essa, essa, essa, abominação. Cadê aquele cretino do Maurice quando eu preciso? Ah, ele vai ter que fazer alguma coisa. Ele que pegue esse menino e afaste dessa, dessa, dessa, Sharon. Que pai é esse que não dá conselho? Que não sacode o garoto? Onde já se viu?
A mãe puxava os cabelos das têmporas, mas Jorginho já tinha ido com a fulana para o quarto.
Cinco horas depois, a tal foi embora e Jorginho apareceu na sala. Achou a mãe sentada no chão, abraçada ao catálogo do Louvre.

- O que houve, mãe? A senhora não está bem?
- Por que, meu filho, por quê? O que foi que você viu nessa moça?
- Mãe!!!Ela é mulher do Wellinton Tererê, mãe! Pô! Wellinton Tererê!

O rapaz saiu. Orgulhoso da sua conquista. Com essa, ele casava. Sim, senhor. Essa valia a pena!

sábado, 28 de abril de 2012

Mulher de poeta


Essa espera louca e sem sentido
Querendo te engolir inteira
Te comer sem motivo
E ter você a caminhar em minhas costas
Tirar as minhas botas e calar meus ouvidos
Sussurrando suas falas             
Roçando sua cara
E ainda sim, querendo tudo e mais
E só um tanto dentro de outro tanto
Até te calar, enfim.

Essa espera louca e sem sentido
De semanas e semanas
E calores e zumbido
E minha face toda sua
E minhas pernas bambas e cruas.
E você e eu e tudo o mais
E mais alguém
Essa tristeza, essa frieza
Essa felicidade fingida e ao mesmo tempo real
Visceral. Pânico. Tântrico. Mofo.
E todas as outras pessoas
E a volta toda
E a gente toda que assiste nossos olhares
E sua feição doce, pouca, desdenhosa, intensa e tudo o mais.

Essa espera louca e sem sentido
De te ler
De te entender
E gritar minhas ânsias a quem quiser ouvir
E decidir o que quero
Se te quero
Se te amo
Se te como
Se te corno
Se te lambo
Se te louco
Se te limo
Se te mato
Em meu peito e fim.