terça-feira, 12 de junho de 2012

Mini conto (Ou: Resumo)

Amou quem estava invisível.
Salvou das devastações.
Iluminou a escuridão.
Disse: Vem.
Fui.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Maldição (Ou: Ciúmes)


Ele sabia que aquela seria sua maldição. A maldição de não esquecer. Nada. Tudo.
E o Nada e o Tudo entalhados nos seus calcanhares. Ele não esquecia.
Eram pedras a rasparem em seus pés, endurecendo suas plantas, rachando, marcando suas idas.
Era uma maldição. Não deixava nada para trás.
Não poderia nunca esquecer-se do dia de angústia, nem do furto de sua alma, nem do corte em suas carnes, nem da violência em seus pares, nem da solidão em todas as presenças.
Era uma maldição. E ele a lembrar-se da vida inteira, dos sonhos, dos sonos, das chegadas, das partidas, do sexo, do amor rompido, do primeiro, do último, da cama quente sem nexo.
Ele e o mais dentro dele. E as portas fechadas para qualquer emergência. E o ciúmes que ele tinha dela afogava suas tripas. Ele queria esquecer. Não podia.
Era o fígado que contava coisas. Era o rim que zombava dele. Cada milímetro de si corroído pela ferrugem da incerteza de ser amado.
Ele sentia ciúmes. E nunca lhe fez tanta falta a falta de memória. Por que tinha de sobra. Queria esquecer e não podia. Queria fartar-se de momentos, e dizer chega. E não podia. Queria satisfazer-se de cenas, mas elas estavam todas recicladas nas pupilas, nos nervos, na pele, no cheiro dele mesmo.
Nunca foi tão importante esquecer.
Mas o ciúmes era a presença mais presente. A navalha mais afiada. Cortava suas coxas e suas taras. Extirpava sua inocência e suas falas.
Ele queria esquecer e não podia.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Breu (Ou: Amor)


Ele fechou os olhos e procurou no breu, em sua escuridão, um desejo para desejar, um delírio para saborear, uma ilusão para ressurgir, um botão para apertar.
Ele explorou no fundo do seu globo ocular uma imagem de registro para seus momentos fúnebres. Não havia.
Sabia que, em algum minúsculo tempo, num tempo em que seus horizontes expandiram, seus lábios umedeceram, sua língua calou no palato, existiu um breu produtivo, um sentimento em carne viva e ele, ali, procurava nas angústias de suas memórias, uma memória para chamar de sua.
Tolheu o que não servia, puxou para si redemoinhos de tudo o que girava em sua cabeça fértil e infantil, e percebeu que, no viver atropelado, nas caricaturas que fez de si, nas amarelinhas que pulou roubando um quadrado, deixara para trás, o seu melhor.
Ele fechou os olhos e procurou no breu, em sua escuridão particular, e nada achou ali a não ser aquela mesma frase que já disse a quem amou um dia: Não acredito em amor.
Foi então que se perdeu. Foi exatamente ali que se desfez o que nele tinha se feito desde o nascimento.
E agora, fechava os olhos e procurava no breu. Sua escuridão era densa e balbuciava coisas em sua garganta rouca.
Olhou para o lado e viu alguém e disse: Recolha aqui meus cacos, pelo amor de Deus. Mas era o Diabo a olhar em seus olhos. E ele respondeu: Eu não acredito em amor. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dr. Alfredo (Ou: A boa mãe)


Toda mulher sonhava em casar-se com um médico. Talvez, toda, seja um exagero, mas muitas sonhavam em constituir uma tradicional família ao lado de um bem sucedido homem da área da saúde. Um quase herói, salvador da espécie humana, operário em prol da qualidade de vida e longevidade do seu semelhante. Isso, é claro, era no tempo que o médico dedicava-se a essas banalidades.
Hoje em dia, muitas fêmeas ficariam com seus coraçõezinhos pulsantes e românticos batendo velozmente, caso conseguissem fisgar um bom jogador de futebol. Nada como ter um marido que ganha em euro.
Mas, o caso que conto aqui, é diferente. É um caso típico de mãe. 
Uma boa mãe,  mãe zelosa, protetora e perspicaz, quer mesmo é casar-se com um pediatra. Que maravilha durante uma otite, catapora, bronquite, pneumonia ( nos casos mais graves) ou, até, uma simples frieira, poder olhar para seu lado na cama e dar de cara com um pediatra. A mãe, com as bochechinhas rosadas e o sorriso alegre, em questão de minutos resolveria o problema, sem precisar ligar para ninguém, enfrentar uma fila no pronto socorro, sem imaginar loucuras com sua cabeça fértil e apavorada. Bastaria um pedido, um olhar, no máximo, uma piscadela, e seu protetor, seu herói da penicilina, do estetoscópio, levantaria seus braços fortes e colocaria em uso seu cérebro privilegiado, para aquela casa voltar ao seu sossego habitual e aquela mãe respirar com um alívio que só as mães conhecem. É aquele que se sente ao olhar um filho saudável a correr pela sala, enquanto a empregada faz saltos mortais na tentativa de salvar um cristal.
Quando Suely comunicou à família que estava deixando seu amado Pedro, pai de seus três filhos para casar-se com o Dr. Alfredo, foi um choque. Maior para os homens da família, para os maridos das amigas e para as solteiras ou casadas sem filhos. As mães fizeram uma cara que seus maridos julgaram ser espanto, mas que, na realidade, era inveja pura. Era uma sensação de incompetência. “Por que não pensei nisso antes”
Pedro tentou de tudo. Argumentou, chorou, ameaçou, mas Suely disse que era preciso. “Sim, eu te amo, Pedro, mas a questão aqui é o bem estar das crianças”.
O homem questionou sua capacidade como pai. Será que fez algo errado? Não. Tinha conversado com a barriga da mulher enquanto ela gestava aqueles bebês, mesmo achando que de nada serviria. Leu os livros especializados, assistiu aos partos, segurara as mãos firmes da mulher parindo. Até hoje não sentia o mindinho. Tinha ido a todas as reuniões de escola, consultas médicas, aniversários em buffets que eram a própria ilustração do inferno. Todos estavam em boas escolas, faziam inglês, natação, dança, piano. Frequentavam a fono, dentista, psicólogo. Fora as viagens, os passeios de final de semana.
Passaram-se três meses. Pedro, tomado de uma gota de coragem, foi até o apartamento da esposa com o propósito de fazê-la desistir daquela loucura. Tocou a campainha e, para sua surpresa, quem atendeu foi o próprio Dr. Alfredo. Trocaram um mínimo sorriso. Um leve balançar de cabeças.
Ele entrou, já não tão corajosamente. Podia estar enganado mas teve a impressão de que o Dr. Alfredo tentara derrubá-lo usando sua bengala. Aquele velho cretino.
Suely veio sorrindo abertamente e ficou surpresa ao ver o ex marido parado no meio da sala. Ele pediu um minuto de sua atenção e foram ao escritório para ter a conversa final, como ela mesma disse.
O pobre marido, ex marido, mais uma vez humilhou-se, fez pedidos, promessas e, por fim, usou um argumento que jurou que não iria usar, por ser mais um constrangimento que era imposto sobre ele mesmo:
− Suely, pelo amor de Deus, o homem tem oitenta anos!!!!
− Que baixo que você é, Pedro. Fique sabendo, que o Julio tem cinco anos. ( Julio era o caçula)
− E o que tem isso a ver, Suely?
− Tem que se o meu atual marido, meu marido pediatra ( disse isso com orgulho e certa prepotência) fizer a gentileza de viver mais 10 anos, já terá sido de grande valia. E me dê licença!
Virando as costas foi até a cozinha porque era hora de preparar a gemada do Dr. Alfredo.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O susto




— Zeca, o Patrick expeliu uma pedra de dentro no nariz.
— Expeliu o que?
— Uma pedra, Zeca.
— Uma pedra, como, Lucia? Tipo...igual um cálculo renal? Uma pedra na vesícula? Tem isso no nariz, também?
— Não, Zeca. O menino pegou a pedra no jardim, achou fofa, enfiou no nariz e, hoje, expeliu enquanto eu dava banho nele.
— Quando eu falo que nossos filhos fazem coisas estranhas, você briga comigo.
— Para de falar que os meninos fazem coisas esquisitas que eles ouvem, acreditam e viram adultos estranhos.
— Igual sua tia Zuleica, né, Lucia?
— Tava demorando para a tia Zuleica entrar na conversa.
— Eu me preocupo, Lucia. Os meninos podem ter herdado os genes esquisitos da tia Zuleica. Vai me dizer que é normal o que ela faz?
— Pela milésima vez: a tia Zuza não é esquisita, ela só tem uma profissão um pouco incomum para uma mulher da idade dela.
— Lucia, acorda! A velha faz striptease no baile da saudade.
— Não, não, Zeca. Ela faz dança erótico-artística para senhores da terceira idade.
— Lucia, ela é uma velha de 86 anos que fica pelada para velhos de 95.
— Ela já passou por muita coisa, Zeca. Dá um desconto.
— Muita coisa. Muita coisa mesmo. Aliás, ela já passou na mão de muita gente, também, né, Lu? Ou você já esqueceu do Didi? Do seu Aderbal da farmácia? Do Helinho da lotérica? E o Jorge! O Jorge, sim. O menino ia fazer 19 anos. Teve até aquele episódio envolvendo o fusca do pai do Jorge e a cueca presa na perereca.
— Que história é essa Zeca?
— Tá vendo? Você vive defendendo a tia Zuleica. Acha a velha uma inocente envolvida nos laços podres do sistema, e nem sabe da missa a metade.
— Eu só sou justa. Nunca defendo a tia Zuleica. Só tento entender as atitudes dela. Mas que história é essa do fusca?
— Antes que você fale qualquer coisa, foi seu pai que me contou. Foi assim: a tia Zuleica chamou o Jorge para ir dar uma volta de carro. Ela não tem mais carta, afinal o descaso com a segurança de trânsito não vai tão longe e tiraram a carta da velha. O Jorge, para fazer bonito, pegou o fusca do pai, e pegou a tia Zuza na saída do, digamos...trabalho. Sabe-se lá o que foram fazer. O fato é que a tia Zuleica teve uma câimbra e o garoto se assustou, tentou chamar ajuda e acabou todo mundo parar na delegacia com a tia Zuza com a cueca presa na perereca. Seu pai que teve que ir lá pagar fiança.
— Gente! Como assim, na perereca? Você quer dizer na...
— Não, Lucia! Na perereca da boca. Na prótese da tia Zulmira.
— Ai, Zeca, que susto. E eu achando que dessa vez a tia Zuza tinha aprontado pra valer.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Trilha


Ela vinha caminhando numa longa, longa noite. E seu olhar tinha um nada, quase inteiro, a sombrear as vistas. E os cílios, curtos, retos, estavam baixos não de tristeza, mas de emoção.
Ela vinha caminhando numa longa, longa noite. E suas mãos estavam abertas a procura de coisas para tatear. Era em braile que ela aprendia. Mas não era cega. Via.
Ela vinha caminhando numa longa, longa noite. E suas pernas iam fortes e musculosas. Não era ginástica. Era de uso extremo em subidas íngremes.
Ela vinha caminhando numa longa, longa, longa noite azul. Noite prenha de notícias. Noite parideira.
Ela vinha caminhando numa longa, longa, longa noite carmim. Não era sangue.
Era fogo.
Ela vinha cambaleando numa longa, longa noite sem fim. Mas não era eterno. Era medo.
Ela vinha cochilando numa longa noite que acabaria ali. Mas não era fim. Era tá.
Ela vinha acesa em fogo carmim, numa noite longa azul, com seus cílios curtos e baixos, e um nada, inteiro, nas pupilas limpas.
Ela vinha, então, agora, nesse instante, bem acordada, reluzente porque aprendeu o que faltava, inteira porque  ela mesma consumiu seu nada, caminhando duramente, seguramente nas estradas e calçadas.
Ela vinha feliz e perfumada, sabiamente articulada, espertamente afastada do que não era seu.
Pegou o que era dela, aqueceu o coração e as panturrilhas, subiu no monte mais alto e viu que era o monte certo porque a vista era linda.
Ela voltou numa longa, longa manhã, amando loucamente o que encontrou.
Ela voltou numa longa, longa manhã. Eterna. Agora sim, eterna.
E nunca mais voltou para as trilhas escuras de sua solidão.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O leitor dos ventos


Pegou Baudelaire e se assustou. 
Beijou Machado e derreteu. Quis Kafka e gelou. Engoliu João e empalideceu.
Era um alimentar de coisas estranhas, um saboreamento de construções novas. 
Era o exílio do que cria, era o decidir pelo afogamento.
Ele escrevia na latrina, no difícil, na imundice; tinha um assopramento de angústia, 
de calúnia que expiravam no seu peito. 
Catavento, catalouco, catanicho, catalouça, tiragosto, tira tento, sem juízo e sem dinheiro.
Era só, era fingimento, era um oficial de causas mortas, era leitor de inúmeras portas. Portas que abriam para si e outras que fechavam seus anseios.
Era tido como não era, era sua própria forma e sua própria ausência.
Os livros, a estante toda, ventavam sobre ele e o Poeta se deixava ir pelos sopros, pelo ares, pelos coros, pelos mares...Ia sem vela, ia abraçado ao mastro, absorto, livre, caducando malandrices, desafinos, desafetos. E o verso nascia no cérebro ou na tripa e descia como caxumba deixando o poeta estéril para todo o resto. Pensava em prosa, escrevia em rima, vivia aéreo, cheirava ópio. Era na execução dos fatos que ressurgia, era na badalada que fazia 12 horas. Era uma produção, ora brusca ora metafórica, e ao mesmo tempo era um crédulo, era um bicho, um siso, um doente, mas só por fora.
Ele era a foice que, reluzente, ceifava sua vida e limpava sua cara.
Era um remédio para sua podridão, a podridão da rima, porque no resto era tara.